Projeto Fulgêncio, um barril de pólvora no São Francisco
Criado para abrigar as famílias que perderam suas terras com a construção da hidrelétrica de Itaparica, há 25 anos, o projeto Fulgêncio, em terras do município de Santa Maria da Boa Vista, no Vale do São Francisco, virou um barril de pólvora. O Velho Chico tem água em abundância para irrigar 2,6 mil hectares de banana, maior produção da região, e mais 600 hectares de goiaba, mas a água não chega com a vazão necessária.
O drama dos colonos não está diretamente relacionado com a seca, mas com o “roubo” da água por invasores. Diante de um completo abandono por parte de Chesf, agricultores tangidos pela seca em outros municípios invadem o perímetro irrigado e desviam na cara da estatal a água que deveria estar servindo para quem tem direito de usá-la.
Os colonos já se manifestaram. Promoveram uma ato em frente ao prédio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, responsável pela administração do projeto, mas não deu em nada. Motores-bombas e canos foram retirados pelos agricultores das margens do canal que abastece o projeto.
Resultado: a produção de banana, que poderia este ano ter chegado a 52 mil toneladas, foi reduzida pela metade – 26 mil toneladas. Já a goiaba, segunda produção no perímetro, caiu de 15 mil para seis mil toneladas. “Estamos diante de um conflito que parece não ter fim”, reconhece André de Hollanda, coordenador do projeto.
Segundo ele, no local, moram cerca de 13 mil habitantes. Nas 47 agrovilas, vivem milhares de famílias que dependem da agricultura e estão tendo prejuízos com a falta de água. A Codevasf informou, por sua vez, que já pediu ajuda da Polícia Federal para punir quem capta água de forma irregular do canal do Projeto Fulgêncio.
FUTURO INCERTO
Diante da impotência da Chesf e da Codevasf, o projeto Fulgêncio virou cenário de um grande conflito social. Não há espaço para a convivência de colonos e invasores, estes acusados de violentos, espalham uma onda de terror ao longo de todo o perímetro irrigado. “Aqui, a gente não pode falar nada, tem que andar de bico calado”, diz um dos colonos, pedindo reserva do nome.
Segundo ele, nem a Polícia Federal, acionada uma única vez, conseguiu expulsar os invasores. “Hoje, a área irrigada por invasores chega a 400 hectares dos 4,4 mil hectares do projeto”, admite Holanda, para quem, se houvesse controle da área e um sistema de irrigação mais moderno, Fulgêncio já teria se transformado numa das maiores áreas produtivas do Nordeste.
Há muito tempo na área administrando conflitos, o coordenador do projeto teme pelo seu futuro. “Diferente do projeto Nilo Coelho, em Petrolina, onde os locatários cumprem regras, o Fulgêncio tem características diferentes. Aqui, os colonos não pagam nem a água e nem a energia que usam”, explica, adiantando que só de energia, o custo de manutenção, bancado pela Chesf, chega a R$ 7,2 milhões por ano.
ITAPARICA - O Sistema Itaparica tem a sua origem ligada diretamente à construção da Hidrelétrica Luiz Gonzaga (Barragem de Itaparica), projetada e construída para atender a demanda do consumo de energia elétrica do Nordeste.
Iniciada a sua edificação no final da década de 70, o lago originado abrangeu 834 km2 atingindo sete municípios, quatro pernambucanos e três baianos, com três cidades submersas pelas águas: Petrolândia e Itacuruba em Pernambuco, e Rodelas na Bahia.
A população das localidades submersas foi recolocada para novas cidades construídas e o povo ribeirinho da zona rural foi reassentado em Projetos Agrícolas nos municípios de Santa Maria da Boa Vista, Orocó, Floresta e Petrolândia (PE), e Curaçá, Abaré, Rodelas e Glória no Estado da Bahia.
No projeto Fulgêncio, até a Prefeitura de Santa Maria da Boa Vista está sendo acusada de prejudicar os colonos. Segundo a Associação dos Produtores do Projeto, caçambas, retroescavadeiras e uma patrol, que eram para serem utilizadas de forma exclusiva no projeto, foram desviadas para a sede do município.
A partir de compromissos assumidos em negociações com representantes e líderes do Projeto Fulgêncio, a Chesf disponibilizou, através de convênio formal, caçambas, retroescavadeira, patrol e outras máquinas para serem usadas, exclusivamente, na recuperação das estradas do perímetro irrigado.
No entanto, desde que assumiu a Prefeitura de Santa Maria da Boa Vista, numa pendenga judicial que não se esgotou depois da eleição, o prefeito Jetro Gomes (PSB) teria levado as máquinas do projeto para a sede do município, onde as caçambas foram vistas carregando lixo no centro da cidade.
“Enquanto isso, o lixo toma conta das agrovilas do Projeto Fulgêncio, submetendo os verdadeiros donos das máquinas, que são os moradores daquela comunidade, ao abandono e à ausência do poder público”, diz um dos colonos.
Fonte: Blog dos Cabroboenses
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