Hoje (02/05) às10:00 horas da manhã será lançado na escola EREMPEM o Projeto "Cordelando no São Francisco". Nós entrevistamos e coordenador geral do projeto, o cordelista Raimundo Nonato Medrado do Nascimento. Confiram:

Site o Boavistano - Como é de costume aqui no site, pedimos que faça uma apresentação pessoal. Conte sua história, suas origens.
Raimundo Medrado - Sou Raimundo Nonato Medrado do Nascimento, natural de Santa Maria da Boa Vista, filho de agricultores desde cedo tive que trabalhar na roça para ajudar meus pais. Como todo sertanejo de família pobre, comecei a trabalhar aos sete anos com meus pais e meus irmãos na luta pelo o sustento da família, que não era pequena. Trabalhávamos pela manhã e estudávamos à tarde em uma escola improvisada com palhas de coco. Minha mãe dava aula para nós e para as outras crianças da redondeza, passávamos por muitas dificuldades para estudar, às vezes tínhamos de caminhar cerca de 10 km, isso, após uma fatigante jornada de trabalho debaixo de um sol como o da nossa região; com muitas dificuldades... Mas nunca desisti, mesmo tendo que parar de estudar por alguns anos, pois, assim que terminava a 4ª serie (antigo primeiro grau) era preciso estudar na cidade e não tínhamos se quer condições para isso e nem podíamos abandonar os trabalhos, após três anos fora da escola e com muito esforço, principalmente de minha mãe que conseguiu emprego na cidade nos permitiu voltar a estudar, pois passávamos a semana na cidade e aos finais de semana voltávamos para a roça para tirar o ‘’atraso ‘’, como dizia meu pai.
Difícil foi, mas muito gratificante pois tudo isso nos fez jovens, e homens de bem, prontos para enfrentar qualquer barreira, qualquer trabalho que nos coubesse, e trabalhei muito para ganhar meu próprio dinheiro, meu próprio sustento.
Site o Boavistano - Como foi a sua iniciação nos caminhos da literatura de cordel?
Raimundo Medrado - Quando eu era criança sempre escutava meu avô e meu pai, eles liam as histórias de João grilo e uma diversidade de histórias em livros que guardavam em um baú de madeira, eu adorava o jeito e a maneira que eles entoavam aqueles versos, eu não sabia se quer o que era literatura de cordel, mas, foi na escola que tive contato sobre o que aqueles livros eram e através dela descobri o mundo mágico e fantástico dos folhetos de cordel, acabei encontrando sem querer no lixo um velho livro que explicava como se construía um cordel, a partir dai fui me aperfeiçoando, descobrindo como se construía as estrofes, as rimas, em fim, toda a métrica que se precisa para se construir um Cordel; além do mais tive o incentivo de minha professora de literatura que percebeu que eu tinha o dom constantemente me incentivava a escrever poesias. Lembro-me que o primeiro poema que escrevi foi num pedaço de papelão com um pedaço de carvão enquanto molhava (irrigava) a plantação, foi num trabalho que a professora pediu, acabei ficando em primeiro lugar. Daí em diante, fui participando de concursos de poesia, lendo folhetos com temas, estrofes e estilos diferentes e assim, me aperfeiçoando mais.
Site o Boavistano - Quais as influências, inspirações e referências?
Raimundo Medrado - Como disse anteriormente, tive a influencia dos mais velhos que liam as histórias dos folhetos, histórias muitas vezes engraçadas que nos fascinava como: as proezas de João, A Chegada de Lampião ao Inferno e outros títulos e que traziam em sua temática fatos e acontecimentos da região.
E foram esses temas e histórias que sempre me espiraram. Vale lembrar que nas Rádios de Petrolina tinha programas que apresentavam poetas da região e festivais de violeiros, o que me deixava mais fascinado como até hoje me encanta. Nesse tempo ouvia e lia muito os poemas de Patativa do Assaré ainda vivo e que mesmo depois de morto ainda inspira poetas e poetizas de todo o nordeste.
Site o Boavistano - Qual a importância da literatura de cordel para a cultura popular em Santa Maria da Boa Vista?
Raimundo Medrado - O cordel sempre teve um papel fundamental na vida do sertanejo, pois ele ajudou a alfabetizar uma grande parcela da sociedade, hoje o cordel continua trazendo beneficio para nossa gente, tanto pela importância social e cultural que este propicia, pois seus temas trazem acontecimentos e fatos da região, recorda as histórias e relembra os diversos nomes e personagens que fazem parte da nossa identidade, além do caráter formador que este possibilita para as diversas faixas etárias com uma diversidade de temáticas como: política, meio ambiente, personagens, educação... Em Santa Maria da Boa Vista não é diferente, pois hoje temos um grande aliado que é a internet. o que falta mesmo são políticas públicas que o incentivem essa arte.
Site o Boavistano - Como essa expressão se relaciona com as novas gerações?
Raimundo Medrado - É possível encontrar hoje na internet vários sites, programas de rádios e de TVs que abordam o assunto e que difundem o Cordel, bem como a participação da juventude que mostra ter talento e interesse por essa arte. Isso prova que a nova geração tem nas mãos o poder de não deixar que se acabe essa bonita forma de expressão o que falta mesmo são incentivos para isso.
Site o Boavistano - Que projetos, politicas publicas e articulações existem pela valorização da literatura de cordel e também dos poetas da nossa cidade?
Raimundo Medrado - Existe em nossa cidade Programas de rádios como Versos, Viola e Cantoria apresentado pelo poeta Clênio Sandes, concursos de poesias promovidos por escolas e pela Biblioteca Pública, e este belíssimo projeto que daremos inicio agora no mês de maio em escolas de cinco cidades do Vale do São Francisco “O PROJETO CORDELANDO NO SÃO FRANCISCO” que irá promover recitais de poesias populares, oficinas e distribuição gratuita de Folhetos de Cordel a estudantes e professores em algumas escolas de Cabrobó, Orocó, Santa Maria da Boa Vista, Lagoa Grande e Petrolina. Este ano estamos elaborando um livro que trará poemas dos poetas da nossa terra.
Contamos no Projeto Cordelando no São Francisco com o incentivo do Governo do Estado de Pernambuco e do Governo Federal através dos editais promovidos pelo Ministério da Cultura (MINC); da FUNDARPE e da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco. Apesar de todos esses incentivos ainda falta muito por parte do Poder Público e até mesmo da nossa própria força de vontade já que muitos no primeiro obstáculo desistem; é preciso lutar, correr atrás, é isso que estamos fazendo, é isso que iremos fazer, e que com a união de todos iremos conseguir.
Site o Boavistano - Sobre o projeto Cordelando, como será e qual o seu objetivo?
Raimundo Medrado - Vou responder de uma forma que amo muito fazer, em Cordel.
Cordelando no São Francisco
O projeto Cordelando
No sertão do São Francisco
Tem uma grande missão
Tem um forte compromisso
De fomentar a cultura
Incentivando a leitura
Do cordel, em seu ofício.
Garantindo benefícios
Às escolas do sertão
Através de recitais
E o acesso à produção
Mostrando que o cordel
Tem um bonito papel
Prá nossa população.
Ajuda na educação
Conscientiza a juventude
Contribui pra formação
Na cultura e na saúde
Além de incentivar
A criança a estudar
Mostrando suas virtudes.
Que DEUS do céu nos ajude
A cumprir este projeto
Retirando do caminho
“As pedras, os objetos”
Nos dando sabedoria
União, paz, alegria
Até o fim do trajeto.
O cordel é minha vida
A cultura me fascina
CORDELANDO NO SÃO FRANCISCO
É um projeto que não finda
É o ponto de partida
Pra grande iniciativa
Nesta cultura tão linda.